NACIONALA inteligência artificial pode servir ao povo?Por Tica Moreno *
Inteligéncia Coletiva
Brasil de Fato
21 de Novembro de 2025
Acompanhar as notícias sobre os usos, abusos e rumos da inteligência artificial capitaneada pelas big techs dos Estados Unidos pode ser um pouco desesperador e provocar tecnofobia. Mas é urgente para os movimentos populares assumirem a tarefa histórica de entrar e disputar o desenvolvimento dessa tecnologia.
A inteligência artificial que as pessoas sabem que mais usam no cotidiano são os grandes modelos de linguagem, mas este é apenas um tipo de modelo e aplicação. A cada dia, 140 milhões de interações no ChatGPT acontecem só no Brasil, que é o terceiro país com mais usuários nessa plataforma. Ali as pessoas fazem uma pergunta ou dão uma instrução e recebem uma resposta que pode ser útil ou uma alucinação estatisticamente fundamentada.
A quantidade de dados necessários para treinar cada um dos modelos de inteligência artificial é enorme, mas não é nem de longe representativa da diversidade de idiomas, culturas e saberes dos povos. Se você tiver um texto escrito em nepali sobre a situação política do país e usar a tradução de máquina para passar o swahili, a chance de erro é muito maior do que se você traduzir um texto do espanhol ao inglês. O treinamento da inteligência artificial envolve o estabelecimento de parâmetros e instruções internas ao sistema que as pessoas usuárias não tem acesso, mas que, junto com os dados de origem, compõem o viés ideológico desses modelos. Basta fazer um teste e perguntar, por exemplo, quais são os países que mais cometeram atrocidades contra a humanidade para perceber o viés anti-esquerda contido ali.
Dados, inteligência artificial e poder militar hoje são condições de possibilidade da agenda do imperialismo em seu estágio perigoso e decadente. É ingenuidade tratar a inteligência artificial apenas como uma tecnologia a mais, como outra qualquer. Além de acelerar e transformar processos produtivos existentes, ela tem o potencial de transformar qualitativamente as relações sociais, a forma como interagimos entre nós, com o trabalho, os instrumentos do trabalho, com os processos que produzem a vida.
Não a toa a inteligência artificial tem lugar central na geopolítica contemporânea e o que está em jogo nessa disputa é a capacidade de dirigir o desenvolvimento da humanidade.
A inteligência artificial se desenvolve entre duas possibilidades históricas. De um lado, há o potencial progressivo de transformação das capacidades humanas, das relações sociais. A experiência chinesa demonstra como integrar a IA ao conjunto da sociedade, desde o planejamento e a inovação em todos os elos das cadeias produtivas até organização das cidades, do campo e da agricultura, e mesmo dos cuidados às pessoas idosas. Faz isso com regulação, planejamento, código aberto e soberania digital.
Do outro lado, o modelo estadunidense, centrado no controle corporativo privado (Google, OpenAI, Anthropic) e articulado a economia de guerra, desenvolve a IA como em instrumento de vigilância, precarização do trabalho e manutenção das hierarquias Norte-Sul. Nesse projeto, IA tem o alcance de arma de destruição de massa, agora com as big techs do Vale do Silício como sujeitos desse complexo. A IA tem essa característica de uso dual, pelas pessoas e pelos militares. Israel, por exemplo, usa serviços de inteligência artificial (da Google) para classificar a população palestina como alvo e decidir de forma autônoma ataques “mortais-genocidas”. Com a aliança entre as big techs e o governo Trump, enfrentamos as pressões contra legislações nacionais de regulação e proteção de dados, as ameaças e tarifas quando o Brasil tenta regular plataformas de maneira minimamente autônoma, seja na questão das plataformas digitais de trabalho, ou para restringir o uso político dos dados.
Para nós do Brasil, a possibilidade de entrar nessa batalha e construir soberania digital passa necessariamente por compreender que não estamos nas melhores condições.
Estamos mais estruturalmente dependentes das tecnologias estrangeiras e nos falta um projeto nacional estratégico. O Brasil não investe em infraestruturas digitais próprias, e contrata as bigtechs para tudo. O fluxo é a coleta massiva de dados das interações sociais nos territórios, que são armazenados e processados em “nuvens” das bigtech. Estas, por sua vez usam esses dados para treinar seus modelos e desenvolver seus sistemas de IA que, depois, serão vendidos de novo para nós do Sul. A nós, restaria mais uma vez adquirir as tecnologias já prontas.
A renúncia da capacidade de desenvolver ciência e tecnologia, inclusive do potencial de fazê-lo, é uma marca da dependência.
Além de exportadores de minerais e dados, nós precisamos compreender como nossos países estão subordinados e dependentes das big techs em todas as camadas de infraestruturas do digital – seja na infraestruturas físicas, como energia, telecomunicações, data centers e equipamentos, seja na infraestrutura lógica, os softwares, o desenvolvimento de sistemas e bases de dados, além da IA em si. No Brasil, em todas essas camadas identificamos o domínio das corporações transnacionais, pela privatização das infraestruturas físicas – como as telecomunicações -, e pela insuficiência da pesquisa e desenvolvimento soberano.
Soberania não pode ser apenas declaratória. A soberania nacional, a soberania popular, é composta necessariamente por soberania energética, soberania na mineração, soberania tecnológica e digital. Não pode ser a reprodução de territórios de alta tecnologia e territórios de extração de bens comuns, como energia. São imperativos para nossos projetos emancipatórios.
Por isso voltamos aos debate. Quais os projetos que estão atualmente colocados no mundo?
As bigtech encontraram uma fórmula de vender soberania como serviço. Pegaram uma parte do discurso sobre soberania de dados — que é a localização de dados — e vendem o serviço de “nuvem soberana”. Chamam de soberana, mas a Cloud Act dos Estados Unidos determina que nossos dados estão sob jurisdição deles e, sim, eles podem acessá-los. Esse caminho das bigtechs se viabilizou pela visão de soberania digital hegemonizada pela Europa, que foca na proteção da privacidade individual, não em uma visão dos dados como fator de produção, como é o caso da perspectiva chinesa.
Na elaboração chinesa, os dados são fator de produção crucial para a nova qualidade das forças produtivas, e assim devem ser protegidos. A privacidade é apenas uma dimensão. Como fator de produção, os dados têm uma singularidade: podem ser usados simultaneamente por múltiplos atores e agentes, seu valor aumenta com a escala, e possuem capacidade generativa – produzem novas realidades, conhecimentos e possibilidades. Obviamente, produzem o novo na interação com os seres humanos, podem contribuir para destravar capacidades criativas e de imaginação minadas pela exploração, dominação e opressão. Os dados são produto de nossas interações sociais. Então, o controle e poder sobre os dados significa para nós a defesa de territórios, modos de vida, produção e reprodução, conhecimentos e, ao fim e ao cabo, do futuro compartilhado que podemos construir como humanidade.
A soberania nacional formal enfrenta limitações estruturais na prática. Nossa autonomia decisória é minada por uma burguesia nacional que, na América Latina, é historicamente antidemocrática, antinacional — por ser subordinada e dependente — e antipopular. Além disso, nas últimas duas décadas, as corporações transnacionais e seus instrumentos, como os acordos de livre comércio, corroem as possibilidades de soberania e autonomia na tomada de decisões.
A soberania popular não reduz a soberania a um status jurídico a ser conquistado, afirma a soberania como o exercício contínuo do poder popular. E, como defendemos na América Latina, solidariedade, reciprocidade e complementariedade em processos de integração regional e cooperação Sul-Sul são impulsos para nossa soberania, não uma contradição. Assim também é o caso da soberania digital. Não tem como sair dessa situação de profundo atraso, subordinação e dependência sozinhos, em um só país. Como compartilhar redes e infraestruturas digitais precisa ser tratado como uma questão política, e não apenas técnica.
A soberania digital requer tecnodiversidade e resistência à uniformização de modos de vida. Requer que os povos sejam sujeitos do desenvolvimento tecnológico, e não apenas usuários de pacotes tecnológicos que vêm prontos. Isso passa por articular o uso crítico com a construção de um projeto político estratégico para nossos países, com ênfase na industrialização e em uma política científica-tecnológica nacional; na regulação soberana de plataformas, algoritmos e infraestruturas; no financiamento público para desenvolvimento de tecnologias livres, de código aberto e controladas pelo Estado e pelo povo; investimento em datacenters, a formação massiva em educação digital popular, com hubs tecnológicos em escolas, cooperativas, territórios camponeses; políticas de transição justa para a classe trabalhadora diante da automação.
Nós situamos essa agenda dentro das lutas concretas que já travamos e que atravessa todas as dimensões da nossa vida em comum: como a IA pode servir a luta pela reforma agrária e a agroecologia; como a luta feminista pelo reconhecimento e socialização do trabalho de cuidados se articula com a forma como a IA será incorporada ou não na organização social dos cuidados às pessoas idosas; como a luta antirracista confronta os vieses algorítmicos que reproduzem e aprofundam racismo estrutural; como a luta anti-imperialista enfrenta o uso da IA como arma de genocídio e destruição massiva.
Colocar os movimentos populares como sujeitos dessa disputa significa reconhecer que o potencial do Sul Global não está em suas elites financeiras ou intelectuais, mas no povo organizado. Por isso, trazer a inteligência artificial e a soberania digital para a agenda política é um desafio estratégico das organizações populares. Isso passa por deslocar o eixo do debate, do estritamente técnico para o político, combinar o diagnóstico e a crítica com a construção de uma estratégia anti-imperialista e socialista, colocando a inteligência artificial no terreno da disputa pelo futuro da humanidade.
*Tica Moreno é militante da Marcha Mundial das Mulheres
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