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NACIONAL

BRASIL: Bad Bunny e o acordar do monstro: por uma nova atitude masculina

Por Carlos Eduardo Nery Paes *
Brasil de Fato
18 de fevereiro de 2026

O domingo à noite encerrou a semana com aquele belo momento, a apresentação do Bad Bunny, que eu e milhões de pessoas tivemos o privilégio de assistir ao vivo. Uma demonstração do poder da linguagem na mobilização. Não foi pouco, e bastou alguém falar em espanhol no intervalo do SuperBowl para virar o assunto mundial e o desafio do momento à direita, que entra em parafuso ao sacrificar suas peças no jogo do xadrez político. Donald Trump se sentiu ofendido, mas a latino-américa enxergou naquele momento a possibilidade de movimentação. Dizer que “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor” é maravilhoso. Talvez não corresponda à vida real, mas que tombemos falando isso: sempre haverá uma repercussão nas mentes daqueles que pensam se pegam o ônibus da linha da extrema direita com objetivo de ir ao centro. Sempre podem mudar de opinião…

Ao comentar com um amigo psicanalista, ele não vacilou ao comentar: “Benito fez da arte um ato político que toca direto nos que sofrem os efeitos da violência fascista. Dá voz a indignação e chama uma afirmação do eu e da massa contra um discurso totalitário, de ódio, colonial à moda antiga, que tenta silenciar o outro através do medo. Ele foi de uma coragem imensa. Ponto de referência para identificação de massa, dessa massa amedrontada pelas intervenções do ICE trumpiano.”

Ela analisou o caso Epstein, tirando o foco do “monstro individual” e deslocando para o monstro da pedofilia latente que se esconde no poder, na força do silenciamento sobre as mulheres e nas conexões racistas. Lembra que a direita está em silêncio nessa situação, mas talvez a síntese mais representativa seja que tenhamos que tirar as camadas de horror e de distância para enxergarmos que isso representa um projeto de sociedade. Mais que isso: se reproduz da forma mais intensa possível da porta para dentro de cada lar.

Comecei a escutar uma rádio de São Paulo, como sempre faço, aguardando um comentário político que me agrada, da Mônica Bergamo. Pois naqueles poucos minutos, escutei o caso envolvendo o Ministro do Superior Tribunal de Justiça, e as extensões que começam a aparecer. Ouvi a ocorrência envolvendo o rabo do gato puxado em mais uma rede de pedofilia, aparecendo um piloto, daqueles que levam centenas de pessoas diariamente para lá e para cá… A seguir, outro caso envolvendo uma adolescente abusada por um motorista de aplicativo. A locutora, chorando, contando que a vítima, uma menina de dezessete anos, dizendo que se sentia um lixo, em mensagem para a mãe.

Sabemos que isso não é nem a ponta do iceberg. A monstruosidade nas portas das casas de todos. Da porta para dentro, em grande parte.
A seguir, ainda na rádio, entra a notícia de uma mulher ainda em coma após receber dezessete facadas do companheiro. Nada disso é novidade, e tudo isso está sendo o cotidiano.

Bem, a seguir a leitura de um artigo, que lembra, na síntese, que na derrocada da masculinidade tóxica o não da mulher é respondido com uma mão cheia acertando sua face, na melhor das hipóteses.

Uma amiga me disse que “parece que algo no tecido social irrompeu como se um monstro adormecido tivesse acordado faminto; é uma autorização que esta “ cultura” da direita trouxe para a cena”. Exato, mas não exclusivamente. Ela difunde e se imiscui para todos os lados.

Se esse monstro que irrompeu no tecido social encontra autorização em uma cultura que valida o ódio, cabe aos homens abandonarem o papel de meros cronistas da barbárie para se tornarem agentes ativos da extinção da masculinidade tóxica que golpeia o “não” feminino. O privilégio de testemunhar a potência mobilizadora e corajosa da arte de Bad Bunny deve se converter na urgência de encarar o horror que se reproduz, muitas vezes, da porta para dentro de nossos próprios lares. É preciso que o “eu” masculino emerja da cômoda análise intelectual para praticar um amor que seja, de fato, mais poderoso que o ódio, desmantelando as redes de silenciamento e as conexões que sustentam esse projeto de sociedade violenta. No xadrez da vida real, não basta entender o jogo: é preciso que os homens tenham a bravura de derrubar as peças do totalitarismo antes que o monstro devore o que resta de nossa humanidade.

*Carlos Eduardo Nery Paes é médico.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.



Editado por: Vivian Virissimo