NACIONALQuem é responsável pela ascensão de Flávio Bolsonaro e da extrema direita no Brasil?Por Tomas Castanheira
World Socialist Web Site
6 de Outubro de 2026
O primeiro turno das eleições gerais no Brasil, no domingo, produziu um terremoto político. O senador Flávio Bolsonaro, filho e herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro – que cumpre pena de 27 anos de prisão por liderar a conspiração golpista de 2022-23 –, terminou em primeiro lugar com 47,0% dos votos válidos, contra 45,2% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT).
Contrariando as últimas pesquisas, que apontavam Lula à frente, Flávio recebeu 56,1 milhões de votos, 2,25 milhões a mais que o atual presidente, e chega ao segundo turno de 25 de outubro como favorito.
Esse resultado não se limitou à disputa presidencial. O Partido Liberal (PL) de Bolsonaro elegeu 121 deputados federais, contra 99 em 2022, a maior bancada conquistada por um único partido desde a Constituição de 1988. No Senado, conquistou 19 das 54 cadeiras em disputa e terá 28 das 81 – mais de um terço da Casa. Nos estados, a direita consolidou seu domínio, vencendo já no primeiro turno os governos da maior parte do Sul e do Sudeste, o coração econômico do país.
Um veredito sobre a Frente Ampla
Os resultados de domingo são, acima de tudo, um veredito devastador sobre a perspectiva defendida pelo PT e pelas organizações da pseudoesquerda que o apoiam: a de que o fascismo poderia ser derrotado por meio de uma aliança com o establishment político burguês apodrecido. Longe de derrotar a ameaça fascista, a “Frente Ampla” promovida pelo PT só a fortaleceu.
As eleições ocorreram em meio à intervenção aberta do imperialismo americano, que usou tarifas punitivas, sanções e a designação de facções criminosas brasileiras como “organizações terroristas” para fazer a balança pender em favor do candidato fascista. A pseudoesquerda apologista do PT certamente atribuirá o resultado, centralmente, à ingerência americana. Mas o sucesso da estratégia de Washington dependeu, a cada passo, do ódio contra o histórico do PT e da incapacidade do partido, como defensor da burguesia nacional dependente brasileira, de organizar qualquer oposição consistente ou principista ao imperialismo.
Não deve haver ilusões sobre as pretensões de Flávio Bolsonaro. Seu programa combina uma terapia de choque ao estilo de Javier Milei – cortes de gastos, privatizações e destruição de direitos trabalhistas – com medidas de Estado policial dirigidas contra a classe trabalhadora.
Na segunda-feira, o capital financeiro deu o seu próprio veredito: o real se valorizou 5% frente ao dólar, o Ibovespa disparou cerca de 8% e as ações do Banco do Brasil, controlado pelo Estado, saltaram 12%, com os investidores apostando, nas palavras do Financial Times, que Flávio “promoverá rápidos cortes de gastos” e “aprovará reformas favoráveis ao mercado”.
Flávio propõe integrar o Brasil ao “Escudo das Américas” de Washington, a coalizão de governos de extrema direita por meio da qual o governo Trump está convertendo a América Latina num protetorado neocolonial e numa base de operações para a guerra contra a China.
Além disso, prometeu anistia para o pai e para os condenados pela insurreição de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, legitimando a conspiração golpista e preparando sua continuidade. Menos de quatro anos depois da tentativa de golpe, o herdeiro de seu líder está às portas da Presidência do Brasil. Quem são os responsáveis?
A chave para compreender esses resultados foi dado pelo próprio Lula. Falando em Barcelona, em 18 de abril, na primeira reunião da “Mobilização Progressista Global”, fez uma autocrítica calculada: “Governos de esquerda ganham eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema”.
Foi uma confissão da sua falência política. Eleito em 2022 à frente de uma Frente Ampla com os banqueiros, o agronegócio e os partidos da direita tradicional, o governo do PT impôs austeridade e privatizações ditadas pelos mercados financeiros, ao mesmo tempo em que elevou os gastos militares a recordes históricos e reabilitou politicamente as Forças Armadas que apoiaram o golpe.
Junto com seus satélites da pseudoesquerda e dos sindicatos, o PT entregou à extrema direita o monopólio da oposição a um sistema político odiado pelas massas.
Uma expressão clara das consequências dessa política apareceu em São Paulo, o estado mais rico e industrializado do país e centro histórico do movimento operário do qual surgiu o PT. Ali, o governador Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Bolsonaro, obteve uma vitória esmagadora (cerca de 63% contra 36% dos votos) contra Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda de Lula e arquiteto da política econômica e do programa de austeridade de seu governo.
O PT dobra a aposta
A resposta do PT está sendo aprofundar esse curso reacionário, e foi bem resumida pelo portal pró-PT Brasil 247, que escreveu que “Lula terá que reduzir abstenção e conquistar os eleitores que votaram em Flávio, mas preferem Alckmin”. Geraldo Alckmin, vice-presidente de Lula, é um veterano da direita brasileira e ex-governador de São Paulo. O site também reporta que Lula considera nomear Alckmin ministro da Fazenda e lhe dar protagonismo maior. A aparente estratégia do PT para o segundo turno é usar Alckmin para dar face de direita à campanha.
Ao mesmo tempo, o PT busca costurar alianças com dois candidatos presidenciais derrotados da direita, Augusto Cury e Ronaldo Caiado. Ambos defenderam ostensivamente a anistia aos envolvidos na tentativa de golpe. Caiado prometeu que seu primeiro ato no governo seria uma “anistia ampla, geral e irrestrita” para Jair Bolsonaro e todos os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Que o partido que afirma defender a democracia contra o fascismo corteje um político que prometeu libertar os golpistas expõe a fraude de toda a “frente democrática”.
A noção de que Lula pode vencer apresentando-se como uma versão diluída da política direitista de Flávio Bolsonaro é reacionária e politicamente falida. É exatamente a receita que produziu o resultado de domingo.
As massas não guinaram à direita
Por trás dessa estratégia está a tese, promovida pelo PT, pela pseudoesquerda e pela grande mídia, de que a ascensão da extrema direita expressa um giro à direita das próprias massas. Isso é falso. Sua função é jogar a responsabilidade pela catástrofe sobre a classe trabalhadora, e não sobre aqueles que a traíram.
Os trabalhadores brasileiros não apoiam um programa de ataques sociais e de subordinação ao imperialismo americano. O governo Lula manteve 80,9% das famílias endividadas e os juros em 13,75%. Demagogicamente, Flávio “estava no supermercado” enquanto Lula falava de “soberania e terras raras”, nas palavras de um analista da CNN, e conseguiu transformar a revolta generalizada com os preços e a criminalidade em votos para a extrema direita.
A abstenção atingiu seu nível mais alto desde 1998 e, somada aos votos brancos e nulos, chegou a 24,6% do eleitorado – 39,1 milhões dos 158,7 milhões de eleitores aptos. Isso expressa uma rejeição inteiramente justificada ao sistema político como um todo e a um governo que nada oferece além da continuidade da austeridade e de um nacionalismo reacionário.
Particularmente significativa é a hostilidade a Lula entre os jovens, que cresceram sob governos do PT. A desaprovação de Lula entre jovens de 16 a 34 anos subiu 9 pontos percentuais, chegando a 55% em setembro, segundo pesquisa Quaest.
As eleições, além disso, ocorreram em meio a uma crescente onda de greves – de bancários, trabalhadores dos Correios, professores e metalúrgicos – que se chocaram diretamente com o governo Lula e com as centrais sindicais que fazem campanha por sua reeleição. O presidente da CUT, Sérgio Nobre, disse explicitamente a Lula: “Presidente, aqui está o seu exército… O senhor é o nosso general”.
Enquanto todo o establishment burguês se move para a direita, a classe trabalhadora se move para a esquerda. É essa contradição, que não encontra expressão no sistema político oficial, que a extrema direita explora. O que está na ordem do dia é uma guerra de classes aberta, cujos sinais são visíveis em todo o continente, das greves gerais na Bolívia e na Argentina aos protestos de massa no Chile.
Quatro décadas, não só quatro anos
O colapso do PT é, em essência, um repúdio não apenas às políticas dos últimos quatro anos, mas às das últimas quatro décadas. Em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito, o World Socialist Web Site escreveu:
Sua eleição é o resultado da degeneração profunda, sob o impacto de enorme crise econômica e de tensões sociais em ebulição, da ordem democrática burguesa estabelecida 30 anos atrás, quando foi adotada a primeira constituição depois do fim da ditadura militar, em 1988. O processo de transição da ditadura militar para o governo civil foi realizado por seus elaboradores de maneira “lenta, gradual e segura”. A abertura política assegurou tanto uma anistia geral aos assassinos e torturadores do exército brasileiro quanto a defesa da propriedade e dos lucros dos capitalistas que apoiaram a ditadura militar.
Um papel central nessa transição foi desempenhado pelo Partido dos Trabalhadores, que serviu para desviar as massivas greves e a militância revolucionária da classe trabalhadora brasileira, que abalaram a ditadura no final da década de 1970, de volta ao domínio do estado burguês.
A mesma análise lembrava que o PT foi fundado com a participação decisiva dos revisionistas pablistas: os seguidores da OCI francesa de Pierre Lambert, a tendência argentina de Nahuel Moreno e o Secretariado Unificado de Ernest Mandel:
Crucial para a formação deste partido foram as atividades políticas de grupos que romperam com o movimento trotskista, o Comitê Internacional da Quarta Internacional, e rejeitaram o papel revolucionário da classe trabalhadora. Alguns deles haviam anteriormente promovido o castrismo e a teoria pequeno-burguesa de guerra de guerrilha como um substituto para o desenvolvimento de um movimento socialista revolucionário das massas trabalhadoras, com consequências desastrosas em toda a América Latina. Na fundação do PT, esses grupos chegaram à conclusão de que um partido reformista burguês ligado aos sindicatos poderia fornecer uma via parlamentar brasileira única para o socialismo.
Essa “via parlamentar” levou o PT a se tornar o partido preferido do capital financeiro nacional e internacional, e seu aparato sindical corporativista, o principal instrumento de supressão da luta de classes. Os herdeiros políticos dessas tendências revisionistas, agrupados hoje no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e em seu entorno e nas organizações morenistas, passaram os últimos quatro anos atrelando a classe trabalhadora ao PT e à sua Frente Ampla em nome do “combate ao fascismo”. De 2018 a 2026, a mesma fórmula produziu o mesmo resultado, agora em condições de uma crise muito mais profunda.
Um processo internacional
As eleições brasileiras fazem parte de um processo internacional. Na Europa, nos Estados Unidos e em toda a América Latina, a ascensão eleitoral de partidos e figuras fascistoides foi preparada pela falência e pela podridão do que se apresenta como a “esquerda” oficial. Na América Latina, a crise de Lula está ligada ao colapso de toda a “Maré Rosa”, cujos governos chegaram ao poder na esteira de lutas de massas, aplicaram a austeridade e abriram caminho para regimes de extrema direita, da Argentina e do Chile à Colômbia, Peru e Bolívia. Está ligada também ao desastre do chavismo, que hoje administra o saque da Venezuela enquanto fantoche de Washington, e do castrismo, que pôs a economia de Cuba à venda sob a pressão do bloqueio americano e da ameaça de invasão – movimentos que foram sistematicamente promovidos pela pseudoesquerda como alternativas anti-imperialistas e socialistas.
No entanto, em todos esses países, incluindo a Europa e os Estados Unidos, as massas estão se movendo para a esquerda, um confronto de dimensões revolucionárias está em desenvolvimento.
A perspectiva do CIQI
Os acontecimentos no Brasil confirmam a perspectiva do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), que o Grupo Socialista pela Igualdade (GSI) defendeu sozinho contra toda a pseudoesquerda brasileira: a de que a classe trabalhadora não pode combater o fascismo, a ditadura e a guerra subordinando-se a qualquer setor da burguesia, e de que o PT não é um partido operário com políticas equivocadas, mas um partido burguês que serviu por quatro décadas para conter a luta de classes.
O desastre do PT e da Frente Ampla apoiada pela pseudoesquerda, juntamente com a falência do chavismo e do castrismo, representa uma experiência política crucial. Ela está afetando profundamente a consciência das massas no Brasil e internacionalmente, e está gerando uma busca por respostas políticas e programáticas sérias que somente o movimento trotskista mundial pode oferecer.
Isso exige uma ruptura com o PT, as centrais sindicais e a pseudoesquerda que orbita em torno deles; a construção de comitês de base, ligados pela Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB) a unificação dos trabalhadores de todas as Américas contra o imperialismo e a ditadura; e, acima de tudo, a construção da seção brasileira do CIQI.
Os resultados de domingo não são motivo para pessimismo. Nosso otimismo, porém, não se baseia na ilusão de que as coisas se resolverão por si mesmas, ou de que um governo de Flávio Bolsonaro será fraco demais para levar adiante seu programa. Ele se baseia na compreensão tanto da necessidade quanto do potencial da intervenção independente da classe trabalhadora. Somente essa intervenção, armada com um programa socialista internacionalista, pode deter a degeneração reacionária da sociedade burguesa – e as condições objetivas para isso estão amadurecendo rapidamente. A tarefa é dar a ela uma direção consciente.
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